Em 23/09/2019
 

Suicídio: do desespero à escuta

Idete Zimerman Bizzi


   Dia 10 de setembro é o dia mundial da prevenção do suicídio. Muito se ouve dizer que “quem ameaça se matar só quer chamar atenção”, ou que “é melhor não perguntar nada, porque dai sim a pessoa resolve se matar”. As evidencias científicas apontam para outra realidade: quem ameaça tirar a própria vida provavelmente o fará em algum momento, se não obtiver ajuda, e falar sobre o assunto de forma respeitosa e interessada trará benefício.

 

   A campanha Setembro Amarelo disponibiliza em seu site uma cartilha para alertar e educar sobre o tema. Sabe-se que idosos e jovens têm maior risco de suicídio do que a população em geral; o Rio Grande do Sul tem um índice de suicídio superior aos demais estados brasileiros; os grandes fatores de risco são transtornos de humor(depressão, bipolaridade), abuso de drogas e álcool, e outros quadros psiquiátricos.

 

   A maior parte dos desesperos humanos tem solução e tratamento, que passam por medicação, rede de apoio e psicoterapia. Diversos problemas de saúde tratáveis podem levar a quadros psiquiátricos importantes, dentre eles anemia, hipo ou hipertireoidismo, para efeitos de várias medicações, os quais podem ocasionar quadros confusionais, psicose, depressão ou mania. Quem sofre pode não saber o que fazer, mas o profissional de saúde saberá.

 

   Todo indivíduo tem dentro de si partes sadias e partes adoecidas, amores e ódios. Quando, por motivos diversos, as partes sombrias adquirem força e se alastram, instala-se uma tirania da destrutividade e uma solidão sem nome. A morte auto-inflingida, seja com o propósito de dar cabo ao próprio sofrimento, seja para cumprir a fantasia de agredir ou mobilizar outras pessoas, é sempre um ato desesperado, permeado por grande sesação de desamparo.

 

   As tentativas de suicídio são habitualmente precedidas de sinais, avisos que nem sempre são valorizados ou reconhecidos, o que intensifica a sensação de solidão e vazio em quem sofre. Desesperado está quem não mais espera ser escutado, não porque nunca tentou, mas sim porque desistiu.

 

   O momento de falar/escutar é importante, delicado, requer comprometimento, empatia e seriedade. O ser humano que é ouvido pode admitir sofrer e tem condições de aguardar, acompanhado, que ventos mais favoráveis soprem.

 

Texto publicado no jornal Zero Hora, de Porto Alegre no dia 10/09/2019

 

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Idete Zimerman Bizzi

Psiquiatra

Psicanalista,

Membro da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre.

 

Coordenação: Danilo Goulart

 

 

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