Em 28/02/2019
 

Matando a Morte ou a Saudade

Erik Dória trás para o PsiQuo um texto sobre saudade e as constantes transformações da vida.


Matando a Morte ou a Saudade

 

          Alguns meses atrás eu e mais três amigos decidimos nos reunir em um estúdio para tocarmos as músicas da nossa antiga banda. Estivemos juntos e firmes como banda, por quase 10 anos entre alguns shows e algumas poucas turnês. No ano de 2018, completou-se dez anos da produção e gravação do nosso primeiro e único disco. Devido à isso, e aproveitando a estadia de um deles aqui na cidade, decidimos fazer esse reencontro musical.

           Todos apreensivos, afinal, não tocávamos essas músicas já há alguns anos, desde a nossa decisão de encerrar as atividades como banda. Chegamos no estúdio e tocamos. Claro, não lembrávamos de quase mais nada. Acordes, riffs, mais nada. Mas por incrível que pareça, conseguimos tocar.

          Ficamos empolgados e pensamos, “nossa, vamos fazer um show de reunião!”. Porém, um de nós foi contra. Já dizia que aquilo tinha passado, que não éramos mais aquilo, que já não nos representava mais. Eu, de início, fiquei bastante frustrado, porque viver aquilo novamente com eles, me deu uma saudade tão grande que eu quis viver de novo. Mas depois, com calma, pensei, “é para ter saudade mesmo”

          Saudade, é algo comum que sentimos quando não estamos próximos daquele objeto de desejo, por outro lado, conseguimos tolerar a sua ausência. Faz falta? Faz, mas conseguimos suportar. O sentimento de falta, seria o vazio incapaz de suportar a espera ou a perda, a ausência.

         Quando me dei conta disso, lembrei de um pequeno texto escrito por Freud chamado “Sobre a transitoriedade”, onde em um diálogo com um jovem poeta, Freud comenta que as coisas na vida podem ser tão belas, justamente por serem passageiras.

         Nós, seres humanos, estamos em constante mudança. Deixando coisas antigas para trás, criando e construindo novas. Precisamos sentir saudade das coisas boas do nosso passado, porque o passado já passou e não volta. Por outro lado, somos capazes de suportar a ausência e entender que a vida segue. O momento de agora é o agora, não é mais o anterior que passou há 1 minuto atrás.

         Aproveitar o nosso presente ao máximo e da forma mais saudável possível. Acho que foi isso que meu amigo quis dizer quando se opôs a querer fazer o show de reunião. Estávamos podendo desfrutar daquele momento ali, tocando, revisitando nossas memórias e sentindo saudade. Aquilo foi bom enquanto durou, percebemos isso naquele momento, mas a vida continua. A vida segue, nós não somos mais aqueles garotos de dez anos atrás. Somos outras pessoas no momento presente, temos novas prioridades, outros objetivos, outros pensamentos.

         E foi nesse meio dessa reflexão, que lembrei de uma música da nossa banda chamada “Matando a morte”, um título que naquela época eu não entendia o significado. Porém, tem muito a ver com o que estou tentando escrever aqui. Fala que a vida é passageira, e que estamos em constante mudança.

         Então rapidamente, veio à minha mente, um verso da canção que fez-me lembrar tudo que fiz e construí, naquela época com aqueles caras. Perdendo aulas da faculdade viajando para tocar, pegando horas e horas de carro passando por vários estados até o local do show, dormindo em lugares desconfortáveis, as brigas e os xingamentos entre nós, as preocupações com os nossos futuros, tudo isso, apenas para ter em troca a felicidade de mostrar nossa música e nos sentirmos vivos no nosso presente.

         ” E se perguntarem, o que fazemos aqui, cantando e gritando, esses versos. Direi a eles: estamos matando a morte!”

         Nos dias de hoje, devido a tudo que passamos, ganhei grandes amigos para vida inteira. Crescemos, evoluímos e continuamos juntos. Porém, com novos e diferentes objetivos, afinal não somos mais os mesmos. Cada um procurou sua forma de matar a sua própria morte, adiando sua hora do fim, aproveitando da melhor forma o seu momento presente, reinventando-se e fazendo suas próprias escolhas.

 

Matando a morte

Nascemos e morremos todos esses dias

Morte, velho, jovem, dor

Ou sem nenhuma nostalgia

Partiremos no meio

De uma conversa

Sobre a sociedade

Deixando amigos

Idéias e saudades

 

É tão incomodo

Falar sobre isso

Mas conforta saber

Que iremos ser

 

E se perguntarem

O que fazemos aqui

Cantando e gritando

Esses versos

Direi a eles

Estamos matando a morte!

 

Erik Dória

Psicólogo CRP 19/2414

Psicanalista em formação pela SPR

Membro do NPA

Membro fundador do IPFR

 

Coordenação: Danilo Goulart

 

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