Em 21/03/2018
 

A parte que lhes cabe deste latifúndio

O primeiro texto do ano são reflexões acerca da violência, política, sociedade, da condição humana. Qual o valor de uma vida? Somos todos Marielle?


Se compreendermos que a paz absoluta é um conceito que se refere a coisas inanimadas, inorgânicas ou mortas, podemos facilmente deduzir que a vida se constitui num fenômeno altamente perturbador. Não será difícil constatar essa afirmação se observarmos o descomunal esforço que cada ser empreende para se manter vivo.

Também sabemos que desde a origem da vida no planeta, coexistem forças construtivas e destrutivas, o bem e o mal, instâncias angelicais e demoníacas. Obviamente não falo em sentido místico-religioso, porém em sentido simbólico. Não é sequer novidade que tais forças estão presentes também e, em especial, na espécie humana, e para não divagarmos muito longe no tempo histórico, é suficiente nos reportarmos à violência, destrutividade e criminalidade presentes desde o início dos tempos da aventura humana, contrastando com os espetaculares progressos alcançados nas mais diversas ciências.

Entretanto, as investigações e pesquisas psicanalíticas nos mostram que tais forças angelicais e demoníacas estão presentes no mais íntimo de todo e cada ser humano, com pequenas variações culturais. O que isso quer dizer? Significa que no interior de cada ser humano convivem forças construtivas e destrutivas, amor e ódio, anjos e demônios. Mais ainda, que no mais profundo de nossos inconscientes ou de nossas almas, convivem instintos capazes de nos mover no sentido de criarmos feitos maravilhosos como a civilização e a cultura, as conquistas científicas e tecnológicas, mas também impulsos de natureza perversa, destrutiva, homicida, suicida. O fundamental equilíbrio entre essas forças, auxiliadas pelo meio que vai do berço, da educação, à própria continência da civilização que construímos, faz com que, na maioria das vezes, também a nossa agressividade seja utilizada de maneira construtiva, seja como defesa contra o que nos ameaça, seja como estímulo às nossas conquistas.

Sabemos que, para que ocorra este equilíbrio razoavelmente estável, os impulsos destrutivos e violentos que nascem com cada criança precisam ser acolhidos por uma função materna benevolente e acolhedora, continente amoroso e seguro para que a agressividade seja “civilizada” e se alie às forças de vida num funcionamento agregador e construtivo. Não menos importante se faz a presença do pai, que amorosamente protege, introduz o bebê na cultura, oferece limites firmes, estruturantes e alternativas para que a frustração do desejo seja suportada, com ética, consideração pelo outro, pelo diferente e respeito à verdade.

Podemos pensar então, que quanto mais jovem é a criança, maior é a sua agressividade e destrutividade em potencial, e que, à medida que o desenvolvimento se dá, essas potencialidades vão pouco a pouco sendo inibidas ou sublimadas, mas jamais extintas.

Assistimos em nossos dias, estarrecidos e a despeito de todo o conhecimento científico que produzimos, ao descontrole da violência, da agressividade e da destrutividade, praticados especialmente por uma população desamparada, feito crianças abandonadas, literalmente marginalizada, desconsiderada em relação aos cuidados básicos que todo ser humano deveria dispor, de saúde, de habitação, de proteção e, sobretudo de educação, vítimas de um sistema social pós-moderno fracassado, reforçado pelo poder político do Estado, não menos fracassado e irresponsável, dissimulado, incapaz.

Assistimos boa parte de nossa classe política (eleitos como nossos representantes, símbolos paternos de proteção, ética e cuidados) se envolver em escândalos de corrupção, deslealdade, descompromisso, desrespeito à responsabilidade e à ética. Alia-se a isto a fantasia de impunidade que se alastra pela sociedade e atinge em cheio as nossas crianças, os mais jovens, os mais imaturos, os desfavorecidos, os abandonados.

O caso da vereadora e ativista Marielle Franco e seu motorista Anderson Pedro Gomes, assassinados brutalmente há uma semana deste texto, é simbólico, emblemático de tantos e tantos outros que ocorreram e ocorrem diariamente, com Marias e Joãos sem status para grandes repercussões mundiais como este.

São tragédias anunciadas há décadas por sociólogos, antropólogos, filósofos, psicanalistas, humanistas. Tragédias previsíveis para qualquer um que se disponha a observar o desenvolvimento de uma criança e as suas necessidades mais básicas de proteção e de oportunidades.

E nesse mundo caótico, sem pai nem mãe, a nossa cidade maravilhosa destaca-se não apenas pela beleza, mas pelo abismo social que se impõe entre o asfalto e o morro, entre a Vieira Souto e a Maré, entre o descaso dos afortunados e os desesperançados, rebelados em protesto a reivindicar pela sua condição humana cidadã, em nada diferente da minha, que escrevo, ou da sua, leitor que me lê.

Os humanos do Complexo do Alemão, Rocinha, Maré, Santa Maria, Terra Dura, não são menos humanos do que os de Ipanema, Leblon ou 13. E se não eram vistos (não eram vistos?) por se esconderem nas vielas das favelas, hoje desceram o morro e são destaque nos cartões postais de arma na mão, a requisitar o seu quinhão de direito, a parte que lhes cabe deste latifúndio.

E todos os Marielle Franco, Anderson, Barcarena, Chico Mendes, Dorothy Stang, Martins, sem esquecer os Amarildos, vozes a se levantar e a denunciar o óbvio, são facilmente calados, em um processo em que a vida vale muito pouco ou quase nada.

Desde a lei da anistia, de 1979, 1345 pessoas foram assassinadas por motivações políticas em nosso país, onde o Rio lidera o ranking. Ao lado da Colômbia, Filipinas e México, somos também campeões às avessas. 194 políticos ou ativistas foram assassinados em 5 anos. Só neste ano, pelo menos 12 lideranças foram mortas no Brasil, o dobro de casos no mesmo período de 2017.

Alia-se a estes dados, por outro lado, a onda ultraconservadora que assola o mundo e, aqui, em especial o nosso país, em ano de eleição presidencial. Oportunistas do asfalto, corruptos, psicopatas ou ignorantes culturais e sociais, aproveitam-se do trágico ensejo para destilar também o seu veneno.

A indignação é necessária, as homenagens são justas, mas uma Marielle é pouco e muito simples fazer com que desapareça. Mas, e se fôssemos todos?

É preciso que sejamos todos Marielle!

 

Adalberto A. Goulart

Presidente do Núcleo Psicanalítico de Aracaju

 

Coordenação: Danilo Goulart

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